As duas portas e a segurança do crente

Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela. Mt 7:13-14

O texto acima apresenta um quadro bem nítido. São duas portas, uma estreita e outra larga. São também dois caminhos, um espaçoso e outro muito apertado. E também, são dois destinos, a vida eterna e a perdição eterna.

Agora note que os dois caminhos estão separados, não se cruzam. O único jeito de alguém caminhar por um deles é ter entrado por sua respectiva porta. E uma vez estando a trilhar num desses caminhos, a chegada no destino é certa. Não se concebe que alguém ande no caminho apertado e chegue no lago de fogo, nem que alguém, tendo percorrido o caminho espaçoso se depare com a vida eterna.

Logo, tudo se decide pela porta por onde se entra, pois ela dá para um único caminho e que conduz a um único destino. Não há atalhos que permita corrigir a rota ou sair da estrada em que se está. Pode-se até parar ao longo do caminho, mas nunca pular para o outro lado, sem passar pela porta. Acertando a porta, tudo se resolve. Por isso, Jesus disse "esforçai-vos por entrar pela porta estreita" (Lc 13:24).

Jesus é a porta. Ele disse "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens" (Jo 10:9. Nenhuma possibilidade de entrar por ele e encontrar a perdição no outro lado. Ele também é o caminho. "Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim" (Jo 14:6). E Ele também é a vida. "E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste" (Jo 17:3).

Você já entrou pela porta estreita, que é Jesus? Se sim, está no caminho apertado, que é Ele próprio.  E chegará com segurança na vida eterna.

Soli Deo Gloria

O livre-arbítrio que não temos

A Escritura testemunha com frequência que o homem é escravo do pecado; o que quer dizer que seu espírito é tão estranho à justiça de Deus que não concebe, deseja ou empreende coisa alguma que não seja má, perversa, iníqua e suja; pois o coração, completamente cheio do veneno do pecado, não pode produzir senão os frutos do pecado.

Não pensemos, porém, que o homem peca como impelido por uma necessidade iniludível, pois peca com o consentimento de sua própria vontade, continuamente e segundo sua inclinação. Mas como a causa da corrupção de seu coração odeia profundamente a justiça de Deus, e por outro lado lhe atrai toda sorte de maldade, por isso se diz que não tem o livre poder de escolher o bem e o mal — que é o que chamamos de livre arbítrio.

João Calvino
In: Breve Instrução Cristã

Presciência, certeza e predestinação

A objeção arminiana contra a predestinação também igualmente vai de encontro à presciência de Deus. O que Deus sabe e conhece antecipadamente deve, na própria natureza do caso, ser tão fixo e certo como o que seja pré-ordenado; e se a pré-ordenação for inconsistente com o livre arbítrio do homem, assim também o será a presciência de Deus (e vice e versa). Pré-ordenação resulta em eventos certos, enquanto presciência pressupõe que eles sejam certos.

Mas, se os eventos futuros são pré-conhecidos por Deus, eles não podem, qualquer que seja a possibilidade, ocorrerem de forma diversa do Seu conhecimento. Se o curso dos eventos futuros é pré-conhecido, a história seguirá um curso que é tão definitivo e certo quanto uma locomotiva se desloca pelos trilhos entre uma cidade e outra. A doutrina Arminiana, por rejeitar a predestinação, rejeita também a base teísta da presciência. O senso comum nos diz que nenhum evento pode ser previamente conhecido a menos que, por alguma maneira, seja física ou mental, tenha sido pré-determinado. Nossa escolha quanto ao que determina a certeza de eventos futuros afunila-se então em duas alternativas - a pré-ordenação do sábio e misericordioso Pai celeste; ou a obra do acaso, físico e cego.

Os socinianos e unitarianos, enquanto não tão evangélicos como os arminianos, são neste ponto mais consistentes, pois após rejeitar a predestinação de Deus, eles também negam que Ele possa conhecer antecipadamente os atos de agentes livres. Eles sustentam que, na própria natureza do caso, pode ser antecipadamente sabido como a pessoa agirá, até que chegue a hora em que a escolha seja feita. Esta visão, é claro, transforma as profecias das Escrituras - na melhor das hipóteses - em adivinhações e palpites perigosos, irresponsáveis, abusivos e obsoletos; e destrói a visão cristã da inspiração das Escrituras. É um ponto de vista que nunca foi aceito por nenhuma Igreja cristã reconhecida. Alguns dos socinianos e unitarianos têm sido intrépidos o bastante para reconhecer que a razão que os levou a negar certa presciência de Deus quanto aos atos futuros dos homens, é que, se assim fosse admitido, seria impossível refutar a teoria calvinista da Predestinação.

Muitos arminianos sentiram a força deste argumento, e enquanto não tenham seguido os Unitarianos na negação da presciência de Deus, deixaram claro que tranqüilamente o negariam, se assim pudessem ou se atrevessem. Alguns falaram depreciativamente da doutrina da presciência, sugerindo que, em sua opinião, era de pouca importância se alguém cresse ou não. Alguns foram mais longe, ao ponto de afirmar claramente que os homens melhor fariam rejeitando a presciência do que admitir a Predestinação. Outros sugeriram que Deus pode voluntariamente negligenciar o conhecimento de alguns dos atos dos homens de maneira a deixá-los livres; mas isso, é claro, destrói a onisciência de Deus. Ainda outros sugeriram que a onisciência de Deus pode implicar somente que Ele sabe todas as coisas, se Ele assim escolher, justamente como a Sua onipotência implica que ele pode todas as coisas, caso Ele assim opte. Mas a comparação não é sustentável, pois aqueles certos atos [dos homens] não são meras possibilidades, mas sim realidades, embora ainda futura; e imputar ignorância daqueles aspectos a Deus é negar-Lhe o atributo da onisciência. Esta explicação resultaria no absurdo de uma onisciência que não é onisciente.

Quando confrontado com o argumento da presciência de Deus, o arminiano admite que eventos futuros estão certos ou fixos. Mas quando lhe é apresentada a questão do livre-arbítrio, ele tende a desejar manter que os atos livres são incertos e em última instância dependentes da escolha da pessoa - o que é uma posição plenamente inconsistente. Um ponto de vista que sustente que os atos livres de homens sejam incertos, sacrifica a soberania de Deus de modo a preservar a liberdade dos homens.

Além do mais, se os atos livres são eles próprios incertos, Deus precisa então esperar até que o evento tenha ocorrido antes de fazer os Seus planos. Na tentativa de converter uma alma, seria esperado que Ele agisse da mesma maneira que se diz sobre Napoleão ao marchar para batalha - com três ou quatro planos diferentes em mente, de modo que se o primeiro falhasse, ele poderia recorrer ao segundo, e se aquele falhasse, ele moveria sua tática para o terceiro e assim por diante - um ponto de vista que é, no geral, inconsistente com a verdadeira visão de Sua natureza. Ele então ignoraria muito do futuro e estaria ganhando diariamente vastas quantidades de conhecimento. Seu governo do mundo também, naquele caso, seria muito incerto e mutável, dependente quanto fosse da conduta imprevista dos homens.

Negar a Deus as perfeições da presciência e da imutabilidade é representá-Lo como um ser desapontado e infeliz, que é freqüentemente colocado em cheque e derrotado por Suas criaturas. Mas quem pode realmente crer que na presença do homem o Grande Jeová deva permanecer sentado, questionando, “O que ele fará?”. Todavia, a menos que o arminianismo negue a presciência de Deus, ficará sem defesa ante a lógica consistência do Calvinismo; pois a presciência implica em certeza e certeza implica em predestinação.

Loraine Boettner
In: A doutrina reformada da predestinação

Você é você

Cada pardal é um indivíduo diferente de todos os outros. O algo especial criado por Deus naquele pardar é produto de todas as circunstâncias especiais que entraram na produção dele. A maioria de nós quase não percebe a singularidade dos pardais. Saímo-nos melhor no caso dos seres humanos. O fato de você ser o que é envolve um universo. E se o fato de você ser o que é for obra de deus, então uma infinidade de eventos passou pelas suas mãos.  Foi a habilidade dEle que formou você a partir do padrão genético de seus ancestrais, a cultura do seu tempo e o conjunto de relacionamentos que o cercam. Isso não significa negar que se seus ancestrais tivessem sido mais temperados, seus mais mais sábios, seus professores mais conscientes e seus colegas de escola mais gente, você teria sido uma pessoa melhor do que é. No entanto, do jeito que você é, Deus fez você. E a suprema perrogativa da arte divina é tirar o bem do mal. Não um bem maior, não. Nós não ajudamos a Deus para que Ele produza coisas melhores oferecendo-lhe materiais piores. Mas aquilo que Ele cria é sempre um bem único. Você é você, e não há uma pessoa exatamente igual a você. Os defeitos, assim como as vantagens do seu contexto, entraram na composição da mistura.

Austin Farrel
In: A biblioteca de C. S. Lewis

A presciência mata o livre-arbítrio?

Os dois conceitos parecem diametralmente opostos e contrários: a presciência universal de Deus e o livre-arbítrio. Se Deus prevê tudo e não pode estar errado, o que a Providência previu como evento futuro deve acontecer. De modo que, se desde toda a eternidade a Providência conhece previamente não apenas as ações dos homens, mas também seus pensamentos e desejos, não haverá nenhum livre-arbítrio. Nenhum desejo ou ação poderá existir e divergir daquilo que a Providência infalível de Deus previu. Pois se podem ser mudados e tornados diferentes de como foram previstos, não existirá nenhuma presciência certa do futuro, mas apenas uma opinião incerta, o que julgo não se poder acreditar acerca de Deus.

O que estou tentando mostrar é que, qualquer que seja a natureza das causas, o acontecimento de coisas previstas é necessário, mesmo se o conhecimento prévio de eventos futuros não parece impor-lhes a necessidade.

Boécio
In: A consolação da filosofia

A situação de uma igreja sem o Espírito

A luz da igreja dos Estados Unidos[1] está trêmula, quase se apagando. Já se rendeu demais aos reinos e valores deste mundo. Enquanto a maioria das pessoas percebe que há um problema, poucas fazem alguma coisa a respeito, e, das que fazem, muitas optam pelas soluções erradas. Em vez de falar de uma maneira relevante e profunda à cultura atual, temos capitulado e, em muitos casos, pouca ou nenhuma diferença em relação ao mundo (...)

O Espírito Santo é um elemento absolutamente vital para nossa atual situação. É claro que Ele é sempre vital, mas talvez de maneira ainda mais especial hoje em dia. Afinal de contas, se o Espírito Santo age, nada pode impedi-lo. Se Ele não age, não conseguiremos produzir frutos genuínos, não importa quanto esforço façamos ou quanto dinheiro gastemos. A igreja se torna irrelevante quando ela não passa de uma simples criação humana. Não temos condições de ser tudo o que fomos criados para ser quando tudo em nossa vida e em nossa igreja se explica sem a obra e a presença do Espírito de Deus.

[1] Embora o autor se refira à situação da igreja norte americana, a situação descrita aplica-se à realidade brasileira (Nota do Editor do Cinco Solas).

Francis Chan
In: O Deus esquecido: revertendo nossa trágica negligência para com o Espírito Santo.

Puritanos notáveis

William Perkins (1558-1602) – sua teologia foi o primeiro grande exemplo de uma síntese da teologia reformada aplicada à transformação da sociedade, igreja e indivíduos da Inglaterra elizabetana. Em sua obra mais famosa, Armilla Aurea (A corrente de ouro – 1590), ele expôs a tradição reformada em torno do tema da teologia como “a arte de viver bem”. Deu ênfase à majestade da ordem de Deus e sua implicações sociais e pessoais. Foi o primeiro teólogo elizabetano com uma reputação internacional. Também destacou-se extraordinariamente como pregador.

William Ames (1576-1633) – discípulo mais destacado de Perkins e prolífico escritor. Sua críticas contra a Igreja da Inglaterra causaram o seu exílio na Holanda (onde foi professor) e a proibição dos seus livros na Inglaterra. Suas obras mais famosas são: A Medula da Teologia (1623) e Casos de Consciência (1630). Morreu poucos antes de uma planejada mudança para Massachusetts, onde sua influência, bem como na Holanda, persistiu até o século 18. Sua teologia prática acentuou como cada aspecto da vida devia ser dedicado à glória de Deus.

Richard Sibbes (1577-1635) – foi estudante e professor em Cambridge. Exemplificou a síntese entre profundidade bíblica e sensibilidade pastoral que caracterizou a teologia puritana no que tinha de melhor. Seus escritos são práticos antes que sistemáticos e mostram claramente porque as ênfases puritanas foram assimiladas tão plenamente pelos leigos. Escritos seus como A Porção do Cristão e A Exaltação de Cristo Comprada por sua Humilhação revelam não só uma rica soteriologia, mas profundas percepções sobre a criação e a encarnação.

Thomas Goodwin (1600-1680) – foi influenciado por Sibbes e outros. Estava destinado a uma promissora carreira eclesiástica, mas abriu mão da mesma ao ser convencido por John Cotton (1584-1652) da legitimidade da independência. Depois de algum tempo na Holanda, desempenhou um papel importante na Assembléia de Westminster. Teve atuação destacada no regime de Cromwell e foi presidente do Magdalen College, em Oxford. Buscou unir independentes e presbiterianos em Cristo, o Pacificador Universal (1651). Seu profundo encontro pessoal com Cristo permeou todos os seus escritos.

Richard Baxter (1615-1691) – foi ordenado em 1638 e dois anos depois rejeitou o episcopalismo. De 1641 a 1660 foi ministro de uma paróquia em Kidderminster. Após a guerra civil, apoiou a Restauração e tornou-se capelão de Carlos II. Excluído da Igreja da Inglaterra após o Ato de Uniformidade (1662), continuou a pregar e foi encarcerado em 1685 e 1686. Tomou parte na deposição de Tiago II e deu as boas-vindas ao Ato de Tolerância de Guilherme e Maria. Suas obras incluem O Repouso Eterno dos Santos (1650) e O Pastor Reformado (1656).

John Owen (1616-1683) – ao lado de Baxter, o grande pensador sistemático da tradição teológica puritana. Educado em Oxford, enfrentou uma longa luta espiritual em busca da certeza de salvação, que terminou por volta de 1642. Dedicou seus formidáveis dotes intelectuais à causa parlamentar. Inicialmente presbiteriano, converteu-se à posição independente através da leitura de John Cotton. Fez uma vigorosa exposição do calvinismo clássico em Uma Exibição do Arminianismo (1643). Em A Morte da Morte na Morte de Cristo (1647) fez uma brilhante apresentação da doutrina da expiação limitada. Até o fim da vida trabalhou por uma igreja nacional mais abrangente e pela reconciliação dos dissidentes rivais.

John Bunyan (1628-1688) – após lutar na guerra civil, em 1653 filiou-se a uma igreja independente em Bedford. Um ou dois anos depois, começou a pregar com boa aceitação. Foi aprisionado de modo intermitente entre 1660 e 1672, o que lhe permitiu escrever sua obra-prima, O Progresso do Peregrino (1678), e outros escritos. Após 1672, dedicou-se à pregação e ao evangelismo em sua região. Outras obras famosas de sua lavra são A Guerra Santa (1682) e Graça Abundante para o Principal dos Pecadores (1666). 

Alderi Souza de Matos
In: Os puritanos, sua origem e sua história

O livre-arbítrio e Romano 8:8

Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Rm 8:8

Introdução

A teoria do livre arbítrio pretende provar que o homem tem capacidade inerente para crer no evangelho e aceitar a Cristo. Pressupõe que o homem está numa situação de neutralidade ou equilíbrio moral e que diante da escolha proposta no evangelho o mesmo pode optar igualmente pela salvação ou condenação. Essa teoria tem ampla aceitação no meio evangélico, enquanto que a inabilidade inata do homem é vista como uma desculpa diante de Deus. Se o homem é incapaz de crer no evangelho por si mesmo, dizem, então ele não pode ser responsabilizado pela sua incredulidade. À parte e acima dessa aparente lógica, está o que a Bíblia declara a respeito da condição do homem. E o que ela declara é que é impossível que aqueles que estão na carne agradem a Deus.

1. Agradar a Deus

Agradar é fazer a vontade de alguém, acomodando-se aos desejos e interesesses de outros. Agradar a Deus é fazer aquilo que Lhe dá prazer, que lhe traz satisfação. Isso envolve disposição para abrir mão de agradar a si mesmo. Nesse sentido “Cristo não se agradou a si mesmo” (Rm 15:3), mas sempre fazia a vontade do Pai. Para os cristãos, como soldado de Cristo, “seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou” (2Tm 2:4). Além disso, agradar a Deus muitas vezes implica desagradar a outras pessoas. Paulo dizia “ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 1:10), uma vez que “fomos aprovados por Deus, a ponto de nos confiar Ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens, e sim a Deus” (1Ts 2:4).

Merece especial consideração o fato de que “sem fé é impossível agradar a Deus” (11:6). Dessa forma, a primeira coisa que se exige dos que se aproximam de Deus é que creiam nele. Os que estão na incredulidade não podem agradar a Deus, não importa o quanto suas obras sejam louváveis diante dos homens, pois “tudo o que não provém de fé é pecado” (Rm 14:23). Para Deus, a primeira coisa que lhe é agradável é a fé depositada em seu Filho Jesus Cristo, mediante a pregação do evangelho. Mas, os que estão na carne não podem proporcionar-lhe este prazer, pois todos os ditames da sua natureza são no sentido de agradar a si mesmos.

2. Estar na carne

O que significa estar na carne? A expressão refere-se aos não regenerados apenas ou inclui também os chamados crentes nascidos de novo? A princípio, isso é indiferente para nossa análise, pois seja um crente ou um não nascido de novo, estando na carne não pode agradar a Deus. Mas, estar na carne é diferente de andar segundo a carne, como veremos.

A palavra carne na Bíblia tem uma ampla gama de significados, mas nas epístolas refere-se com frequência à natureza pecaminosa. Um cuidado que se deve ter é diferenciar as alusões ao corpo (σωμα) e carne (σαρξ), pois esta última é que frequentemente representa aquilo no homem que intenta agir à parte e ao contrário da vontade de Deus.

Paulo diz “eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18), João se refere “à concupiscência da carne” (1Jo 2:16) e Pedro às “concupiscências carnais que combatem contra a alma” (1Pe 2:11). Essa natureza pecaminosa, ou “inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8:7). Paulo, especialmente, usa a palavra carne como termo ético significando uma pessoa vivendo separada de Deus e sob domínio do pecado.

Há, contudo, uma diferença entre andar segundo a carne e estar na carne. Embora o crente possa “andar na carne”, não “está na carne”, pois mesmo “andando na carne, não militamos segundo a carne” (2Co 10:3). O crente não deve viver em conformidade com os instintos e pensamentos que surgem de sua natureza carnal, mas ser guiado pelo Espírito Deus. Embora possamos nos deixar levar por nossa natureza carnal, não devemos andar “segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito” (Rm 8:4-5). Aqueles “que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências. Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito” (Gl 5:24-25).

Mas no caso do não regenerado a situação é diferente, ele “está na carne”. Eles seguem a lei de sua própria natureza que “não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8:7). Sua natureza é hostil a Deus e àquilo que Deus exige na sua Santa Palavra. Por isso, em seu estado natural, o homem caído não tem prazer em Deus e não faz aquilo que agrada a Deus.

3. Não podem

O espírito denota poder. No Antigo Testamento o Senhor já havia dito “não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito” (Zc 4:6). Prometendo o Consolador, Jesus disse “ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24:49) e “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo” (At 1:8). Por outro lado, “a carne é fraca” (Mc 14:38), identificada com enfermidade incapacitante, haja vista que “o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne” (Rm 8:3) teve que ser feito por Deus. Porque “o espírito é o que vivifica, a carne para nada aproveita” (Jo 6:63), só podemos agradar ao Senhor quando “servimos a Deus em espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne” (Fp 3:3).

Portanto, quem está na carne, não pode agradar a Deus. Não podemos atenuar essa declaração, fazendo parecer que é difícil ao não convertido agradar a Deus. A escritura está falando de uma impossibilidade absoluta, pois “a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Rm 8:7). O termodunamis” refere-se a “ser capaz, ter poder quer pela virtude da habilidade e recursos próprios de alguém, ou de um estado de mente, ou através de circunstâncias favoráveis, ou pela permissão de lei ou costume; ser apto para fazer alguma coisa” (Strong). Essa palavra é precedida pela partícula de negação absoluta “ou” e não pela partícula de negação qualificada “me”. Portanto, quem não nasceu de novo é absolutamente incapaz de agradar a Deus.

Somente pelo Espírito Santo alguém pode vir agradar a Deus. “Ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12:3). Mas, ao contrário do que pensam alguns, o Espírito não é dado indiscriminadamente, pois é “o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber” (Jo 3:27). O Senhor Espírito Santo age soberanamente no coração de Seus eleitos.

Conclusão

Aceitar a Jesus é, seguramente, algo que agrada a Deus. A teoria do livre-arbítrio declara que todo homem tem a capacidade, ante a oferta do evangelho, de igualmente aceitar ou rejeitar a Cristo. Porém, a declaração de Paulo em Rm 8:8 colide frontalmente com tal teoria, reduzindo-a a pó. Todo homem natural é absolutamente incapaz, de si e por si, de aceitar a Cristo, do que concluímos que o livre-arbítrio é uma quimera, algo puramente imaginário. Por outro lado, o Espírito Santo, operando pela Palavra de Deus, é o poder vivificante, que ressuscita o homem e o leva a viver uma nova vida em Cristo. E nisto o Senhor é glorificado.

Soli Deo Gloria

O que devemos conhecer do homem

O homem foi, no princípio, formado a imagem e semelhança de Deus para que, pela dignidade que tão nobremente tinha-lhe Deus investido, admirasse a seu Autor e o honrasse com o agradecimento que se devia.

Mas o homem, confiando na excelência tão grande de sua natureza, esqueceu de onde procedia e quem o fazia subsistir, e pretendeu alçar-se contra seu Senhor. Foi, pois, necessário que se despojasse de todos os dons de Deus, dos quais se orgulhava loucamente, para que assim, privado e desprovido de toda glória, conhecesse o Deus que o havia enriquecido com generosidade e a quem tinha-se atrevido a desprezar.

Pelo qual, todos nós, que procedemos de Adão, uma vez que esta semelhança de Deus tem desaparecido de nós, nascemos carne da carne. Pois, ainda que estejamos compostos de alma e corpo, sentimos sempre e unicamente a carne, de modo que seja qual for a parte do homem sobre a qual fizemos nossos olhos, só podemos ver coisas impuras, profanas e abomináveis para Deus. pois a sabedoria do homem, cegada e assediada por inúmeros erros, se opõe continuamente à sabedoria de Deus; a vontade perversa e cheia de afetos corrompidos a nada professa mais ódio que a sua justiça; as forças humanas, incapazes de qualquer obra boa, se inclinam furiosamente para a iniquidade.

João Calvino
In: Breve Instrução Cristã

Nota sobre detecção automática de Spam

Nos últimos tempos, percebi que alguns comentadores reclamaram de erro ou exclusão de comentário. Estranhei, pois de fato não excluo comentário, exceto se forem muito ofensivos ou utilizarem termos inadequados. O que não é o caso da maioria que aqui comenta.

Hoje, casualmente vi uma aba no Blogger, com quase uma centena, na verdade 96 comentários, retidos por suspeita de spam. Não sei qual o critério que o blogger usa para esse enquadramento.

Peço perdão àqueles que tiveram seus comentários retidos sem o meu conhecimento. Tomarei duas providências. Verei se tem como desativar essa funcionalidade e caso contrário, consultarei mais frequentemente esta aba para ver se tem algum retido. E irei liberando aos poucos os comentários retidos. O "aos poucos" é porque desconfio que um dos critérios blogger seja a quantidade de comentários num curto espaço de tempo. Os que estiverem duplicados, publicarei apenas o último.

Qualquer dúvida estou à disposição.

Clóvis
Editor Cinco Solas

O espiritismo é cristão?

Não trago para o âmbito de nossa conversa o argumento moral, pois há muitos espíritas que são cristãos de atitude, por causa dos valores que regem suas vidas, valores derivados dos ensinos de Jesus Cristo. Mas isso não faz deles cristãos. O argumento moral aprovaria o espiritismo, ao mesmo tempo em que reprovaria muitos cristãos, que não são cristãos de modo completo, pois, mesmo tendo sido aprovados no plano teológico (por crerem nas verdades bíblicas), são reprovados no plano moral, porque suas atitudes tristemente não condizem com os valores propostos por Jesus Cristo.

Cristão é, portanto, aquele que passa por dois testes: o ético (moral) e o teológico. Teologicamente falando, o cristianismo tem suas bases fincadas exclusivamente na Bíblia, que traz não só os ensinos de Jesus Cristo para uma vida reta, mas também os ensinos dele sobre si mesmo e sobre o presente e o futuro. No teste teológico, infelizmente o espiritismo não passa, a começar pelo modo como vê a Bíblia. A dificuldade maior, contudo, está no papel que Jesus Cristo ocupa na história e na vida, pois ele é visto pelo espiritismo como um mestre, o que é muito pouco para aquele que disse que quem o via via o Pai.

Israel Belo de Azevedo

O mal de Agostinho e a graça de Deus

Acabei a leitura de "Santo Agostinho: o problema do mal", Ivan de Oliveira Silva, publicado pela editora Pilares. Trata-se do TCC do autor, para o curso graduação em Filosofia, da Universidade Mackenzie. Confesso que muita coisa me escapou, por minha deficiência em filosofia em geral, mas especialmente quanto alguns conceitos e terminologia.

O livro, como anuncia o título, trata da visão agostiniana sobre o problema do mal. O que segue, não é uma resenha do livro, mas uma síntese do que ele diz, sem entrar no mérito se concordo ou não, pois como disse, falta-me pré-requisitos para isso. Algumas afirmações do autor me pareceram não muito agostinianas.


O que devemos conhecer de Deus

Como a Majestade de Deus ultrapassa em si a capacidade do entendimento humano e inclusive é incompreensível para este, devemos adorar sua grandeza antes que examiná-la para não sermos completamente abrumados com tão grande claridade.


Por isso devemos buscar e considerar a Deus em suas obras, às quais a Escritura chama, por esta razão, "manifestações das coisas invisíveis", pois nos manifestam o que, de outro modo, não podemos conhecer do Senhor.


A suficiência da Escritura e a evangelização

No ato evangelizador da Igreja, ela prega a palavra de Deus conforme a ordem divina expressa nas Escrituras; fala da salvação eterna oferecida por Cristo, conforme as Escrituras proclama as perfeições de Deus, conforme as Escrituras... Ora, se a Igreja não tem certeza da fidedignidade do que ensina, como então, poderá testemunhar de forma honesta?


Crendo assim, não erro muito

Deus é cheio de graça e não irá regatear-me conhecimento; é cheio de verdade e não irá decepcionar-me. Nunca estarei muito errado, desde que acredite, não apenas em Deus, Pai onipotente e criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, mas em um único Senhor Jesus Cristo, Seu Filho unigênito, luz de luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, por quem todas as coisas foram criadas, que por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus, morreu e ressuscitou dos mortos; cujo reino não terá fim; que domina todas as estrelas e planetas, todas as chuvas e raios de sol, todas as plantas, animais e pedras, todos os corpos e todos os homens; que ensinará aos homens, a seu tempo e modo, tudo o que eles precisam saber, a fim de multiplicar-se e encher a terra e subjugá-la nesta vida e conseguir a vida eterna no mundo futuro. Quanto ao resto, por mais confuso que eu fique, não deverei confiar nEle que não apenas criou este mundo, mas tanto o amou que se humilhou e morreu por ele na cruz?

Charles Kingsley
In: Disciplina e outros sermões

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram

mas, como está escrito: nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam. (1 Coríntios 2:9)

Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera. (Isaías 64:4)
Um dos versículos mais populares da Bíblia, citado até mesmo em canções é 1 Coríntios 2:9. Pregadores da Teologia da Prosperidade encorajam seus ouvintes a sonharem com coisas que eles jamais sonharam...porque é isso o que Deus preparou para aqueles que o amam...e, nessa visão, pode ser desde um BMW até uma mansão na Riviera Francesa. Outros pregadores, mais tradicionais, usam o versículo acima para se referir ao céu e às bênçãos pós-morte. O texto, dizem, nos mostra que não sabemos que tipo de bênçãos receberemos no céu.

Porém, será que é isso mesmo o que 1 Coríntios 2:9, citando Isaías 64:4, quer dizer? Bom, uma regra simples da interpretação bíblica nos diz que devemos ler o texto dentro do contexto. Em outras palavras, devemos, no mínimo, ler o versículo dentro de uma unidade textual maior que faça sentido: a perícope. E, vendo o contexto, o que descobrimos?

1) Já sabemos aquilo que Deus tem preparado para aqueles que o amam. Ahn, como...mas o texto não diz que nós não sabemos o que Deus preparou...que nem olhos viram e nem ouvidos ouviram? Sim...isso é o que diz 1 Co 2:9. Mas, você já leu o versículo 10?
Mas Deus no-lo revelou pelo Espírito; porque o Espírito a todas as coisas perscruta, até mesmo as profundezas de Deus.
Ou seja, por meio do Espírito Santo, sabemos que tipo de coisas "nem olhos viram, nem ouvidos ouviram". Isso não está oculto, foi revelado. Mais precisamente na Bíblia, que é a Palavra de Deus.

Claro que isso não significa que saibamos de todos os detalhes. Por exemplo, não sabemos exatamente como será a vida em novos céus e na nova terra...mas temos o quadro geral.

2) 1 Coríntios 2:9 refere-se ao Evangelho, à salvação de Cristo na cruz. Agora que lemos 1 Coríntios 2:10, é hora de ler 1 Coríntios 2:1-8:
Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. Entretanto, expomos sabedoria entre os experimentados; não, porém, a sabedoria deste século, nem a dos poderosos desta época, que se reduzem a nada; mas falamos a sabedoria de Deus em mistério, outrora oculta, a qual Deus preordenou desde a eternidade para a nossa glória; sabedoria essa que nenhum dos poderosos deste século conheceu; porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória.
O que Paulo está dizendo? Ele contrasta dois tipos de sabedoria. A deste século e a dos poderosos desta época acabou crucificando a Jesus. Paulo não ostentou esse tipo de sabedoria quando pregou o Evangelho...e ela não deve ser a base da fé da Igreja. A fé deve se basear no poder de Deus...em Jesus Cristo e neste crucificado. O Cristo crucificado é a pregação paulina, é a sabedoria de Deus em mistério, preordenada desde a eternidade, para a glória dos eleitos, mas que estava oculta. Veja bem...estava...outrora oculta. Mas, agora, ela foi revelada pelo Espírito.

Que Paulo fala do Evangelho, fica mais claro quando lemos o contexto remoto, o que está escrito em outros textos, como Efésios 3:8-9:
A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas... (Efésios 3:8-9)
Portanto, agora, quando você cantar, pregar ou falar sobre aquilo que "nem olhos viram, nem ouvidos ouviram", você saberá como entender corretamente o ensino de 1 Coríntios 2:9.
 
 Helder Nozima

Inacreditável ao homem caído

Na queda de Adão, perdemos não só nosso interesse em Deus e no desfrutar real dele, mas também todo nosso conhecimento espiritual a respeito dele e a verdadeira disposição a tal felicidade. O homem tem agora um coração muito adequado a sua condição atual: estado degradado e espírito vil. E quando o Filho de Deus vem com a graça regeneradora, e descobertas, e propostas de alegria e de glória eternas e espirituais, ele não encontra fé no homem capaz de acreditar nisso. Mas, assim como o homem pobre é incapaz de acreditar que alguém seria capaz de ter a soma de dez mil reais, também os homens dificilmente acreditariam agora que haja tal felicidade como a que outrora tivera, e muito menos que Cristo agora nos busca.

Richard Baxter
In: O repouso eterno dos santos

A doutrina da imputação

E, se algum dano te fez ou se te deve alguma coisa, lança tudo em minha conta. Fm 18

Numa forma bastante simplificada, imputar significa “colocar na conta de”, “atribuir a”. Nas Escrituras, o termo imputar denota atribuir alguma coisa a uma pessoa ou encarregar alguém de algo ou, ainda, lançar alguma coisa na conta de alguém. Num sentido judicial, a imputação pode ser a base para recompensa e punição. O termo imputar e seus cognatos são utilizados várias vezes para traduzir o verbo hebraico chashabh e o verbo grego logizomai (ISBE). 


A diferença entre a verdadeira e a falsa religião

Ninguém desejará ser considerado como absolutamente indiferente à piedade e ao conhecimento de Deus, já que está demonstrado, por consentimento geral, que se levarmos uma vida sem religião, vivemos miseravelmente e não nos distinguimos em nada das bestas.



Blogs que visito: 5 Calvinistas

Com este texto estréio alguns comentários sobre alguns blogs que visito, de forma nada sistemática, quando o tempo permite.

Os autores

Sou suspeito para falar, pois sou um dos cinco colaboradores. Mas tenha em mente que estou me referindo às postagens de meus colegas Allen Porto, Helder Nozima, Leonardo Galdino e Roberto Vargas Jr. Todos com estilos próprios, mas cada um com boas idéias e competência de sobra para colocar no papel, ou na tela.


O amor a si mesmo cega

Nada    que a natureza humana mais cobice que ser afagada de  lisonjas.  E,  por  isso, onde ouve seus predicados revestir-se  de  grande  realce,  para  esse rumo propende com demasiada credulidade. Portanto,  não  é de admirar que, neste ponto, se haja  transviado,  de  maneira profundamente danosa, a maioria esmagadora  dos homens. Ora, uma vez que é ingênito a todos os mortais  mais do que cego amor de si mesmos, de muito bom grado  se  persuadem  de  que nada neles existe que, com justiça, deva  ser  abominado.  Destarte, mesmo sem influência de fora,  por  toda  parte  obtém crédito esta opinião de todo vã: que o homem  é  a si amplamente suficiente para viver bem e venturosamente (...). Daí, porque tem sido, destarte, acolhido com o grande  aplauso de quase todos os séculos cada um que, com seu encômio,  haja mui favoravelmente exaltado a excelência da natureza  humana (...). Portanto,  se alguém dá ouvidos a tais mestres  que nos detêm  em somente mirarmos nossas boas qualidades,  não avançará no conhecimento de si próprio, ao contrário, precipitar-se-á na mais ruinosa ignorância.

João Calvino
In: Institutas da religião cristã

Aliança de Deus

Aliança pode referir-se a um contrato ou acordo entre partes iguais, ou a um tipo de relação entre um Senhor e seus servos. Claro está que as alianças divino-humanas da Escritura são do segundo tipo. Nas mais preeminentes, Deus, como Senhor da aliança, escolhe certo povo dentre todas as nações da terra para ser peculiarmente seu. Ele exerce o governo sobre eles por sua lei, em termos da qual todos os que obedecem são abençoados e todos os que desobedecem são amaldiçoados. Todavia, a aliança não é meramente uma lei; é também graça. Foi pela graça de Deus, ou por seu imerecido favor, que o povo da aliança foi escolhido. E, uma vez que todos os homens são pecadores, somente pela graça de Deus é que haverá alguma bênção da aliança. Até mesmo os réprobos – que não recebem bênção – são vasos da graça, meios que Deus emprega para cumprir os seus graciosos propósitos (Rm 9.22,23).

John M. Frame

Pelagianismo e evangelização moderna

Um dia comecei a ler sobre Pelágio, o herege dos séculos IV e V, que fora tão combatido por Agostinho e por fim condenado pelo Concilio de Éfeso. Pelágio não só ficou conhecido por negar o pecado original, mas especialmente pelas suas idéias do livre-arbítrio fundamental do homem, que o faz capaz de querer e fazer (até mesmo o bem espiritual). Pelágio pensava a respeito da graça como sendo apenas uma ajuda externa de Deus, do Espírito Santo, para a alma humana; um tipo de ação que persuade o homem pela razão e o faz usar seu livre-arbítrio, sua capacidade de obedecer ou não a lei de Moisés e os ensinos de Jesus. Para Pelágio, a predestinação divina é algo que opera apenas de acordo com as qualidades das pessoas, as quais Deus prevê que terão. É algo baseado no mérito das pessoas. Dessa forma a fé não é um dom, e sim, uma obra meritória para levá-las à salvação. Assim, o homem pode tomar uma decisão por Cristo na dependência apenas de sua própria vontade, independente de Deus. Ou seja, tudo depende do homem.


Coreia do Norte: missionários cristãos desafiam regime

A fronteira que separa a China da Coreia do Norte é uma das mais policiadas do mundo. Minas, radares, mirantes, postos de controle pontuam as margens dos rios Yalu e Tumen para impedir a passagem de desertores. Mesmo assim, o fluxo de refugiados vindos das províncias do norte do reino de Kim Jong-il é constante desde 1995, quando a epidemia de fome, que matou cerca de um milhão de pessoas, provocou o primeiro grande êxodo dos sobreviventes para a China. E agora, alguns desses refugiados fazem o caminho de volta por conta própria, e com uma perigosa missão.

Como mostra reportagem da enviada Any Bourrier, convertidos ao cristianismo por missionários, eles querem espalhar sua nova religião entre os compatriotas, formando uma rede clandestina de resistência cristã ao regime comunista e ateu da Coreia do Norte.

Segundo o Alto Comissariado para os Refugiados das Nações Unidas, entre 200 mil e 500 mil súditos de Kim Jong-il teriam optado pelo exílio nos últimos dez anos, atravessando a fronteira não somente para fugir da repressão totalitária, mas, sobretudo, para não morrer de fome. Muitos foram detidos pela polícia chinesa, que os entregou aos vigias da fronteira porque a China não concorda em conceder-lhes o estatuto jurídico de refugiados, como exige a ONU. Pequim os qualifica de "traficantes" e, por isto, eles não podem reivindicar o direito de asilo.

Muitos conseguiram se esconder, graças à cumplicidade da comunidade coreana que vive na região autônoma chinesa de Yanbian, apelidada de Terceira Coreia. Os de mais sorte sobreviveram porque foram recolhidos pelas missões protestantes da Coreia do Sul, país que é hoje o segundo maior exportador de missionários, atrás somente dos Estados Unidos.

Representantes das igrejas batista, metodista e evangélica estão presentes na fronteira desde 1995. Na época, o objetivo era alimentar e dar alojamento aos fugitivos. Aos poucos, os missionários decidiram batizá-los porque os norte-coreanos pediam para se converter, em reconhecimento à coragem com que os religiosos desafiavam a polícia chinesa para ajudá-los. Sem saber, porém, que o objetivo dos missionários é também político.

- O dever dos cristãos é combater Kim Jong-il e sua dinastia vermelha - decreta o reverendo Park, transferido da Igreja Saemmul de Seul para Yanbian.

Ele compara o trabalho dos missionários cristãos à atuação do Papa João Paulo II, que teve papel importante no enfrentamento do comunismo em sua nativa Polônia, contribuindo para o fim da União Soviética em 1991.

Ricardo Noblat
Recebido por email de Guilherme Basílio

Batismo e Circuncisão em Cl 2:11-12

"No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos" Cl 2:11-12

Introdução

A prática do batismo de crianças é frequentemente justificada com o argumento de que o batismo é o equivalente neotestamentário da circuncisão. A passagem bíblica em epígrafe é geralmente usada para provar esse argumento. No presente artigo pretendemos analisar se esta passagem ensina que o batismo substituiu a circuncisão na nova aliança. A pergunta que procuraremos responder é: Cl 2:11-12 ensina ou leva à conclusão de que a circuncisão é o antecedente bíblico do batismo?

Sabemos que nem sempre chegaremos a uma certeza do significado de um texto. Mesmo assim, temos certeza que não pode significar algo que não significava para o seu autor e seus leitores. Portanto, se Paulo não pretendia ensinar aos colossenses que o batismo substitui a circuncisão, é muitíssimo improvável que tal ensino possa ser extraído naturalmente da passagem.

Em nosso trabalho, faremos uma análise do texto e procuraremos levantar o contexto histórico e o propósito da carta. Também tentaremos relacionar a passagem com outras cartas paulinas, mas sempre focados em Colossenses 2, evitando aprofundar questões teológicas envolvidas. Evidentemente que é um trabalho tentativo e a conclusão, sofre das limitações próprias de seu autor.
ANÁLISE GRAMATICAL

Para análise gramatical, tomamos por base a Almeida Corrigida Fiel e o Stephen's Textus Receptus, utilizando um critério puramente pessoal para essa escolha. Contudo, uma comparação rápida com o texto crítico e com outras versões e traduções não revelou diferenças significativas. O texto mais dissonante do utilizado é a NVI, pelo que se recomenda para comparação.

Análise do texto

Começando com o verso 11, temos No qual (εν ω), que se refere ao Senhor Jesus Cristo, em quem habita "toda a plenitude da divindade" (v. 9) e é "a cabeça de todo o principado e potestade" (v. 10b). também (και), indica que há outra bênção e a encontramos na expressão "estais perfeitos nEle" (v. 10a). Perfeito é completo, plenificado. Em estais circuncidados (περιετμηθητε) o aoristo e o indicativo do verbo dão a certeza de já foi realizado, de uma vez por todas. Não há margem para dúvidas. com a circuncisão (περιτομη) não se trata de circuncisão física, conforme fica mais claro a seguir. não feita por mão (αχειροποιητω). Indica a natureza espiritual da circuncisão, pois denota "não feito por mãos do homem" (Ef 2:11) ou "não desta criação" (Hb 9:11. Cf. Mc 14:58; At 7:48; 17:24; 2Co 5:1 Hb 9:24). E no despojo do corpo dos pecados da carne (εν τη απεκδυσει του σωματος των αμαρτιων της σαρκος), além da natureza espiritual, temos que a extensão não se limita a uma parte do órgão sexual masculino, mas à natureza humana. a circuncisão de Cristo (εν τη περιτομη του χριστου). Não deve ser uma referência à circuncisão de Jesus ao oitavo dia, mas mais provavelmente à sua morte na cruz.

No verso 12, temos sepultados com ele (συνταφεντες αυτω). Como estamos em Cristo, somos sepultado juntamente com ele. Não significa supultado nEle. no batismo (εν τω βαπτισματι). Batismo aqui pode ser a) o batismo de Jesus, no Jordão; b) o batismo de Jesus na cruz (Mc 10:38; Lc 12:50); o batismo do crente nas águas ou o batismo do crente em Jesus. Considerando que se trata de batizado com Ele e não nEle, que a morte de Jesus já foi referida pela circuncisão, resta o batismo de Jesus no Jordão e do crente nas águas. Fico com esta última. nele também ressuscitastes (εν ω και συνηγερθητε). Se morremos e somos sepultados com Jesus, então somos ressuscitados com Ele. Com Ele, como na NVI, é uma melhor tradução. pela fé no poder de Deus (δια της πιστεως της ενεργειας του θεου). A fé no poder de Deus é o meio instrumental da ressurreição do crente. que o ressuscitou dentre os mortos (του εγειραντος αυτον εκ των νεκρων). Se Deus teve poder para ressuscitar Jesus, pode nos ressuscitar também.

CONTEXTO
Contexto histórico 
Colossos era uma cidade da província romana da Ásia, situada no vale do Lico, formando um triângulo com Laodicéia e Hierápolis, ambas mencionadas no Novo Testamento. No passado, tinha sido uma cidade próspera, mas no início da era cristã estava ofuscada pelas suas vizinhas e reduzida a pouco mais que uma vila. Nessa região havia todo tipo de filosofias e religiosos ambulantes abundavam. Colossos também contava com uma expressiva colônia judaica e tinha um constante influxo de novas ideias e doutrinas orientais. Enfim, era um solo fértil para especulações religiosas e heresias e um desafio para a pureza do evangelho.

Provavelmente Colossos nunca seria mencionada no Novo Testamento se não houvesse uma igreja ali. Mas havia. Não foi fundada por Paulo e não consta que tenha sido visitada por ele, por isso não é mencionada em Atos. Paulo ouviu falar de sua fé, mas nunca os encontrou pessoalmente. Contudo, uma igreja desconhecida, numa cidade inexpressiva, recebe uma carta inspirada do grande apóstolo!

Muito provavelmente Epafras foi o fundador e líder da igreja em Colossos, além de outros moradores da cidade como Filemon, Áfia, Arquipo e outros, que podem ter ouvido Paulo em Éfeso (160km) e compartilharam a fé com seus amigos, dando origem à igreja, formada predominantemene por gentios, embora tivesse entre seus membros judeus convertidos. Quando Paulo escreveu a carta, a igreja tinha cerca de cinco anos de existência.

Estando Paulo preso em Roma, Epafras vai à sua procura, para pedir-lhe ajuda. Algumas doutrinas tinham chegado a Colossos e estavam invadido a igreja, ameaçando a paz e a pureza do evangelho. O que vem a ser exatamente essa "heresia colossense" é objeto de discussão, mas é certo que se tratava de uma combinação de misticismo oriental, legalismo judaico, astrologia pagã, elementos do gnosticismo e do ascetismo, com uma pitada de cristianismo.

A atratividade da heresia parecia ser a promessa de um tipo de união com Deus que levava a pessoa à perfeição espiritual, passando a fazer parte da "aristocracia espiritual" da igreja, através de práticas ritualíticas que visavam obter um "conhecimento profundo" e de ascetismo que evitava o contato com a matéria, inerentemente má. Embora seja mencionada na refutação paulina, não parece que a circuncisão fosse um dos rituais exigidos. Tampouco parece estar havendo alguma controvérsia envolvendo o batismo. Paulo, em sua preocupação com a igreja, escreve a Epístola aos Colossenses, e como Epafras permaneceu com ele, para ajudá-lo em sua prisão, a mesma foi entregue por Onésimo e Tíquico.

O propósito da carta, portanto, é refutar a heresia que campeava na igreja de Colossos e restabelecer a verdade e a simplicidade do evangelho. Supor que Paulo tinha a intenção de demontrar que a circuncisão tinha se tornado obsoleta, sendo suplantada pelo batismo cristão como novo sinal da aliança é trazer para o texto elementos estranhos ao mesmo. O argumento paulino é, todo ele, centrado na supremacia de Cristo e na suficiência de Sua obra e não numa troca do sinal externo da regeneração.

Contexto
literário

Os versos 11 e 12 estão inseridos no parágrafo seguinte (Cl 2:4-12):

"E digo isto, para que ninguém vos engane com palavras persuasivas. Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo. Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele, arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças. Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo; porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos nele, que é a cabeça de todo o principado e potestade; no qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos." 
Como vimos, a carta foi motivada pelo relato de Epafras da situação da igreja, ameaçada por heresias gnósticas, legalistas e ascéticas. Aparentemente, os crentes colossenses estavam sendo convencidos que lhes faltava algo para serem espiritualmente completos; só crer em Jesus não lhes bastava, parecia ser o ensino dos falsos mestres. Paulo denuncia tais mestres como enganadores, advertindo-lhes "que ninguém vos engane com palavras persuasivas", "por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo". Eles já haviam recebido o Senhor Jesus Cristo, então tudo o que precisavam era continuar "nele, arraigados e edificados nele, e confirmados na fé, assim como fostes ensinados, nela abundando em ação de graças". Nada mais lhes era necessário, pois tinham Cristo, e "nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade".

O cerne do argumento paulino é "e estais perfeitos nele". O termo πεπληρωμενοι significa estar completo, cheio, pleno. Uma versão traduz "tendes a vossa plenitude nele". Nenhum ritual externo precisaria ser adicionado, pois em Cristo eles já tinham obtido tudo o que os falsos líderes estavam prometendo. Afirmar, portanto, que Paulo ensina que o batismo cristão substituiu a circuncisão judaica é anular toda linha argumentativa do apóstolo. Se ele dissesse "vocês não precisam ser circuncidados, pois foram batizados", estaria enfraquecendo a afirmação de que em Cristo os crentes de Colossos já estavam plenificados, completos, perfeitos.

Correlação e contexto bíblico

Entender o ensino do apóstolo Paulo sobre batismo e circuncisão pode lançar luzes também sobre essa passagem. Será que Paulo relacionava circuncisão e batismo, e caso afirmativo, de que forma ele fazia?

As declarações "dou graças a Deus porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio" (1Co 1:14) e "porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho" (1Co 1:17) podem dar a impressão de que Paulo não tinha o batismo em grande conta. Mas essas frases foram ditas num contexto em que ele combatia o partidarismo corintiano e era "para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome" (1Co 1:15). Logo que ele se converteu "levantou-se e foi batizado" (At 9:18). Estava por perto quando Lídia, o carcereiro e Crispo foram batizados, este último pelo próprio (At 16:15; 33; 18:8; cf 1Co 1:14). Indicativo de que Paulo valorizava o batismo é que chegando em Éfeso e sendo informado de que haviam sido batizados apenas com o batismo de João, levou-os a serem batizados em nome de Jesus (At 19:3-4).

Paulo entendia que "há um só Senhor, uma só fé, um só batismo" (Ef 4:5) e que "fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida" (Rm 6:4). O poder para viver essa dimensão ética do batismo é recebido no próprio ato, "porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes" (Gl 3:27).

Da leitura de todas as passagens paulinas sobre o batismo concluímos que ele jamais faz alguma associação entre batismo e circuncisão. Aliás, o tema circuncisão é mais recorrente que o do batismo nos relatos e cartas paulinos, e ele jamais  menciona que a circuncisão foi substituída pelo sacramento do batismo.

Paulo esteve presente no Concílio de Jerusalém, em que a posição dos fariseus crentes, que entendia quanto aos cristãos gentios ser "necessário circuncidá-los e determinar-lhes que observem a lei de Moisés" (At 15:5). Era o momento para Paulo, Pedro ou Tiago eximirem os crentes da circuncisão com o argumento de que haviam sido batizados nas águas. Porém, a linha de defesa adotada foi a concessão do Espírito Santo e a purificação do coração pela fé. Entre as coisas essenciais a que eles foram sujeitados em lugar da circuncisão não constava o batismo.

Digno de nota é o fato de que Paulo, encarregado de levar a mensagem aos cristãos gentios, tendo encontrado "um discípulo chamado Timóteo" (At 16:1), "quis Paulo que ele fosse em sua companhia e, por isso, circuncidou-o por causa dos judeus daqueles lugares" (At 16:3). Ora, isso mostra que Paulo não via a circuncisão como substituto para o batismo, do contrário, argumentaria com os judeus nesse sentido. Contudo, em outra ocasião, disse que "nem mesmo Tito, que estava comigo, sendo grego, foi constrangido a circuncidar-se" (Gl 2:3). Incoerência? Seria, se o batismo tivesse substituído a circuncisão na igreja, pois tanto Timóteo como Tito já haviam sido batizados. Mas como um era filho de judia, cabia-lhe ser circuncidado, como o outro era grego, não estava sob essa imposição cultural.

No início da carta aos Romanos Paulo argumenta em favor da inutilidade da circuncisão. "Qual a utilidade da circuncisão?" (Rm 3:1), pergunta. Para ele, "a circuncisão, em si, não é nada" (1Co 7:19), "pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura" (Gl 6:15). Note que Paulo não contrapõe circuncisão e batismo, mas circuncisão e novo nascimento. Como nascemos de novo "nós é que somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Cristo Jesus, e não confiamos na carne" (Fp 3:3).

Como podemos ver, seja no seu combate às tentativas judaizantes de impor a circuncisão aos gentios crentes, seja na sua exposição positiva do batismo, em nenhuma das situações Paulo recorre ao batismo como sucedâneo cristão da circuncisão. Este é um pensamento estranho ao apóstolo Paulo ao falar de batismo e circuncisão.

Conclusão

Vimos, acima, que Paulo não tinha a intenção de ensinar em Cl 2:11-12 o batismo como sucedâneo da circuncisão. O argumento paulino contra a filosofia colossense era que em Cristo os cristãos já estão plenificados, não carecendo de nenhum ritual para se realizarem espiritualmente. Argumentar, baseado neste texto, que o batismo é mero substituto do batismo tira a força do argumento de Paulo. Pois iria na direção de que a circuncisão não é necessária, não porque em Cristo "habita corporalmente toda a plenitude da divindade; e estais perfeitos nele" (Cl 2:10), mas devido ao fato deles terem sido batizados, sendo que o batismo, assim como a circuncisão é "feito por mão" de homem.
Soli Deo Gloria