O missionário e a providência divina

Há consenso entre teólogos de diferentes tradições eclesiásticas a respeito de que a providência divina significa a obra pela qual Jeová preserva e governa a obra de Suas mãos. A preservação e o governo se entrelaçam e se complementam entre si na ação providencial de Deus. Ele preserva a criação governando-a e a governa preservando-a. Também temos mencionado que existe convergência entre a ação providencial de Deus e Seu reino. Esta convergência se faz notória, especialmente, quando destacamos o governo, o domínio, de Jeová sobre a criação. Revela-se então que Ele, e não o ser humano, é o Rei de tudo que foi criado.
 
O ensinamento bíblico quanto à providência divina é muito diferente da ideia grega de casualidade, ou de sorte. Segundo as escrituras judaico-cristãs, a providência não é uma força impessoal, mas a ação de um Deus pessoal que, sem renunciar a Sua soberania, confere ao ser humano liberdade de pensamento, decisão e ação, e permite que os processos naturais sigam seu curso. Além do mais, concede a homem e à mulher o privilégio de participar da preservação e do governo da criação.
 
A providência divina é diametralmente oposta ao fatalismo. Este sustenta que "todas as coisas ocorrem de acordo com um plano fixo, no qual não entram para nada as causas externas" (William N. Clarke). "Tudo acontece de maneira inexorável, por determinação de um processo cego (não racional) que deixa de fora a liberdade dos seres humanos. Ao contrário, o cristianismo ensina que a vontade de Deus, a qual controla os acontecimentos, é racional e boa" (Robert E. D. Clark). O fatalista pode cair numa resignação estéril diante da vida e as possibilidades que ela oferece de progresso pessoal e social. O missionário cristão deve procurar entender esta atitude negativa e apresentar com humildade e respeito o evangelho, a mensagem positiva e poderosa que pode nos livrar de tudo aquilo que nossa culpa nos impede de viver uma vida abundante.
 
Por outro lado, tal como diz João Calvino, "quando se fala da providência de Deus, esta palavra não significa que Deus está ocioso e considera desde os céus o que acontece no mundo, mas que é mais como o piloto de um navio, que governa o timão para ordenar tudo quanto há de acontecer".
 
Emilio Núñez
In: Hacia una misionología evangélica latinoamericana
Tradução: Cinco Solas

A criação do homem, sua queda e incapacidade de fazer o bem

Cremos que Deus criou o homem do pó da terra [1], e o fez e formou conforme sua imagem e semelhança: bom, justo e santo [2], capaz de concordar, em tudo, com a vontade de Deus. Mas, quando o homem estava naquela posição excelente, ele não a valorizou e não a reconheceu. Dando ouvidos às palavras do diabo, submeteu-se por livre vontade ao pecado e assim à morte e à maldição [3]. Pois transgrediu o mandamento da vida, que tinha recebido e, pelo pecado, separou-se de Deus, que era sua verdadeira vida. Assim ele corrompeu toda a sua natureza e mereceu a morte corporal e espiritual [4].

Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em todas as suas práticas, ele perdeu todos os dons excelentes [5], que tinha recebido de Deus. Nada lhe sobrou destes dons, senão pequenos traços, que são suficientes para deixar o homem sem desculpa [6]. Pois toda a luz em nós se tornou em trevas [7] como nos ensina a Escritura: "A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela" (João 1:5). Aqui o apóstolo João chama os homens "trevas". Por isso, rejeitamos todo o ensino contrário, sobre o livre arbítrio do homem, porque o homem somente é escravo do pecado e "não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada" (João 3:27). Pois quem se gloriará de fazer alguma coisa boa pela própria força, se Cristo diz: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:44)? Quem falará sobre sua própria vontade sabendo que "o pendor da came e inimizade contra Deus" (Romanos 8:7)? Quem ousará vangloriar-se sobre seu próprio conhecimento, reconhecendo que "o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus" (1Coríntios 2:14)? Em resumo: quem apresentará um pensamento sequer, admitindo que não somos "capazes de pensar alguma coisa como se partisse de nós", mas que "a nossa suficiencia vem de Deus" (2Coríntios 3:5)?

Por isso, devemos insistir nesta palavra do apóstolo: "Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua vontade" (Filipenses 2:13). Pois, somente o entendimento ou a vontade que Cristo opera no homem, está em conformidade com o entendimento e vontade de Deus, como Ele ensina: "Sem mim nada podeis fazer" (João 15:5).

1 Gn 2:7; Gn 3:19; Ec 12:7. 2 Gn 1:26,27; Ef 4:24; Cl 3:10. 3 Gn 3:16-19; Rm 5:12. 4 Gn 2:17; Ef 2:1; Ef 4:18. 5 Sl 94:11; Rm 3:10; Rm 8:6. 6 Rm 1:20,21. 7 Ef 5:8.

Confissão de Fé Belga
Artigo 14

A providência de Deus

Cremos que o bom Deus, depots de ter criado todas as coisas, não as abandonou, nem as entregou ao acaso ou a sorte [1], mas que as dirige e governa conforme sua santa vontade, de tal maneira que neste mundo nada acontece sem sua determinação [2]. Contudo, Deus não é o autor, nem tem culpa do pecado que se comete [3]. Pois seu poder e bondade são tão grandes e incompreensíveis, que Ele ordena e faz sua obra muito bem e com justiça, mesmo que os demónios e os ímpios ajam injustamente [4]. E as obras dEle que ultrapassam o entendimento humano, não queremos investigá-las curiosamente, além da nossa capacidade de entender. Mas, adoramos humilde e piedosamente a Deus em seus justos julgamentos, que nos estão escondidos [5]. Contentamo-nos em ser discípulos de Cristo, a fim de que aprendamos somente o que Ele nos ensina na sua Palavra, sem ultrapassar estes limites [6].

Este ensino nos traz um inexprimível consolo, quando aprendemos dele, que nada nos acontece por acaso, mas pela determinação de nosso bondoso Pai celestial. Ele nos protege com um cuidado paternal, dominando todas as criaturas de tal modo que nenhum cabelo - pois estes estão todos contados- e nenhum pardal cairão em terra sem o consentimento de nosso Pai (Mateus 10:29,30). Confiamos nisto, pois sabemos que Ele reprime os demônios e todos os nossos inimigos, e que eles, sem sua permissão, não nos podem prejudicar [7]. Por isso, rejeitamos o detestável erro dos epicureus, que dizem que Deus não se importa com nada e entrega tudo ao acaso.

1 Jo 5:17; Hb 1:3. 2 Sl 115:3; Pv 16:1,9,33; Pv 21:1; Ef 1:11. 3 Tg 1:13; 1Jo 2:16. 4 Jó 1:21; Is 10:5; Is 45:7; Am 3:6; At 2:23; At 4:27,28. 5 1Rs 22:19-23; Rm 1:28; 2Ts 2:11. 6 Dt 29:29; 1Co 4:6. 7 Gn 45:8; Gn 50:20; 2Sm 16:10; Rm 8:28,38,39.

Confissão de Fé Belga
Artigo 13

A impecabilidade de Cristo

Um dos aspectos da vida de Jesus que mais tem assombrado os homens tem sido Sua absoluta santidade e impecabilidade. A Bíblia afirma repetidas vezes que Jesus é santo. Em Hebreus 7:26-27, diz:

“Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus,que não tem necessidade, como os sumos sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro, por seus próprios pecados, depois, pelos do povo; porque fez isto uma vez por todas, quando a si mesmo se ofereceu” (Hebreus 7.26–27).

O argumento do escritor sagrado é enfático. os sacerdotes terrenos tinham que oferecer sacrifícios a favor de si mesmos antes de fazê-lo pelo povo. Jesus, sendo santo, inocente e sem mancha, pode oferecer-se a si mesmo uma vez por todas pelos pecados de sue povo. 

O mesmo escritor enfatiza a impecabilidade de Cristo, dizendo:

“Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hebreus 4.15).

Do mesmo modo o apóstolo João escreveu: Del mismo modo el apóstol Juan escribió: “Sabeis também que ele se manifestou para tirar os pecados, e nele não existe pecado” (1João 3.5)

Durante Seu ministério terreno, Jesus desafiou os líderes religiosos dizendo-lhes: “Quem dentre vós me convence de pecado? Se vos digo a verdade, por que razão não me credes?” (João 8.46). Até mesmo os demônios reconheceram que Jesus era o "Santo de Deus" (Marcos 1:24).

O apóstolo Paulo afirma que “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2Coríntios 5.21). Só um Cristo impecável poderia oferecer-se a Si mesmo como expiação pelos homens pecadores. Assim como o cordeiro pascal tinha que ser absolutamente santos e sem mancha (1Pedro 1:18-20; 2:22)

O apóstolo João, referindo-se à visão do profeta Isaías (6:1-3), afirma que Aquele de quem os serafins falaram, dizendo "Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos", era nada menos que o próprio Senhor Jesus Cristo. João disse “Isto disse Isaías porque viu a glória dele e falou a seu respeito” (João 12.41). Em resumo, o testemunho das Escrituras é enfático. Cristo foi e segue sendo impecável (Hebreus 13:8). Sua santidade é inquestionável. Tal características é uma demonstração de que Jesus é uma Pessoa Divina.

E. L. Carballosa
La deidad de Cristo
Tradução: Cinco Solas